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Bem-aventuranças em tempo de crise Versão para impressão
Domingo, 22 Dezembro 2013 23:19

juan xxiiiRecordando a Encíclica "Pacem in Terris"
No  contexto da passagem dos 50 anos da Encíclica “Pacem in Terris” de João XXIII, e reconhecendo o seu valor inspirador para os novos tempos, a Comissão Nacional Justiça e Paz publicou um comunicado  sobre a situação social do país. Nele, procurando escutar os anseios e as esperanças  do povo e, discernindo os sinais dos tempos, lança uma palavra de esperança  que possa contribuir para a transformação da realidade que nos envolve.

Uma provocação
MaradiagaO comunicado termina com uma frase do Cardeal Maradiaga (das Honduras) referindo que “se Jesus chamou bem-aventurados (felizes) aos pobres é porque está a assegurar-lhes que a sua situação vai mudar e, consequentemente, é preciso criar movimentos que possam suscitar isso, restituindo-lhes a dignidade e a esperança”. Esta não é uma interpretação simplista e redutora  das palavras de Jesus como que se Ele desse aval à resignação e ao imobilismo, o que resultaria na alienação da pessoa, como foi tão acentuado em tempos não muito distantes. O entendimento correto parece ser exatamente o contrário, isto é, revolucionário no sentido de inverter o critério corrente da felicidade e dos meios para a atingir.

A desgraça da pessoa e do povo
pobrezaSão muitos os indicadores do desequilíbrio social e do mal-estar do povo, vivendo sem esperança, sem acreditar na governação e sentindo-se espetador de um teatro em que dizem representá-lo, mas com cujos atores não se identifica: uma sociedade drenada das forças do futuro, com jovens sem perspetivas, com uma taxa de desemprego que os atinge em 36 %, numa situação que os catapulta para fora, depois de tanto neles se ter investido; a qualidade de vida em retrocesso sobretudo em setores tão fundamentais como a saúde e o ensino; o inverno demográfico que acarretará um problema sério dentro de duas décadas. Somos uma sociedade cheia de problemas, mas sobre cuja solução ninguém parece querer entender-se, como bombeiros discutindo infindavelmente estratégias secundárias quando a casa está em chamas e reduzindo-se a cinzas. São as discussões vindas sobretudo de quem não sente na carne a dureza das medidas que constantemente vão sendo impostas e cujo fim não se vislumbra; provavelmente não sentem nem entendem, nem estão preocupados em entender o sofrimento que estão a provocar àqueles que deveriam respeitar e colocar no centro das preocupações. O bem-estar das pessoas e das famílias, diz o comunicado, não está a constituir o centro da governação: as metas financeiras e orçamentais fixadas no Memorando de Entendimento com a troika têm outro centro de gravidade, que é cego perante um tipo de austeridade que é objetivamente desumana. Os resultados são desastrosos; em vez de conduzirem a uma sociedade mais igualitária, estão provocando uma clivagem típica do subdesenvolvimento: um fosso cada vez mais profundo entre os poucos que têm muito e os muitos que têm pouco. O comunicado refere a falta de equidade na distribuição dos sacrifícios. Curiosamente os multimilionários portugueses aumentaram, passando no último ano de 785 para 870, com fortunas que cresceram em média 11,1 %. Escreve Mia Couto que “a maior desgraça de um país pobre é que, em vez de produzir riqueza, produz ricos”, os tais poucos que o são à custa dos muitos que ficaram mais pobres.

O reino de que Jesus fala
lava-pés 2A solenidade de Jesus Cristo Rei, no final do ano litúrgico, aponta-nos para a paradoxal mudança que Jesus representa perante a religião tradicional e perante os cânones sociais de então. Ele coloca a pessoa no centro das atenções, pois é nela, e especialmente no mais pequeno, que o próprio Deus quer deixar-se encontrar. Por isso Jesus afirma que  “sou rei, mas o meu reino não é deste mundo”. A época natalícia que se aproxima, mesmo em tempo de austeridade, deve conduzir-nos  para o núcleo da celebração: ainda que pouco possuindo, ninguém nos pode tirar a dignidade nem a esperança. Isto exige de nós vigilância e compromisso, sem nos deixarmos levar pelo velho aforismo dos romanos “panem et circenses” (pão e circo), que hoje os grandes gostam de nos oferecer em embalagens vistosas, iludindo assim a futilidade das soluções que nos apresentam.

Valentim Gonçalves, CJP-CIRP
(publicado no VV 24.11.2013)