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No deserto caminhar com esperança Versão para impressão
Domingo, 24 Março 2013 23:26

desertoNo deserto caminhar com esperança

A Quaresma nos recorda a experiência de deserto vivida pelo povo de Israel desde a escravidão até à terra daquele sonho que o animava e revitalizava. No deserto da vida de cada um e de todos, vivemos  momentos de perplexidade provocada por uma austeridade cega.

Os sinais da desesperança
Para além dos discursos de pendor justificativo de uns, derrotista de outros, impõe-se-nos olhar para as pessoas, colocando-as no lugar que devem ocupar perante aqueles que conduzem os seus destinos .
O clamor das pessoas eleva-se de tom. Os discursos do Governo giram à volta de números, estatísticas, percentagens, avaliações técnicas. Parece – e não será ? – que as pessoas são apenas mais uma variante de um processo técnico que as secundariza em favor de um modelo de sociedade onde o “mamon”(dinheiro-riqueza, na Bíblia) é o “deus” diante do qual todos se devem prostrar. Por outro lado, as vozes dos que se lhe opõem fazem-nos desconfiar se não estaremos a ser objeto de uma descarada demagogia. Escrevia José Nunes Martins em i-on line: “Vivemos uma crise de verdade…A demagogia é a ferramenta com que se alcança o poder, que justifica o não cumprimento das promessas eleitorais e se alimenta a vida e a credibilidade das oposições”. A demagogia, venha ela do governo, venha da oposição, não é o serviço que ambos devem prestar ao povo que dizem representar. Como acreditar neles e olhar o futuro com alguma esperança, quando o dinheiro se torna mais escasso para garantir uma alimentação de base, os cuidados de saúde se tornam menos acessíveis, o sonho de uma população culta e educada se esvai, o natural apego à terra tem de ser vencido pela aventura da emigração, o legítimo sentimento de independência proporcionado por casa própria é destruído pelo imprevisto das novas contas ?
Como ter esperança quando a dívida que cada cidadão carrega anda à volta de 20 mil euros, fruto de uma dívida pública do país que se multiplicou por 20 nos últimos 40 anos, segundo os cálculos do professor de Economia Pedro Vieira ? Como ter esperança quando o número de crianças vítimas da mendicidade está a aumentar, transformando-as por acréscimo em vítimas de redes criminosas, segundo a conclusão do Observatório de Tráfico de Seres Humanos ? A Caritas Europa alerta para os riscos das medidas de austeridade e afirma que a pobreza infantil anda ligada a essas medidas.

desempregoVer, pensar e agir com esperança
Basta abrir os olhos para começar a pensar. Por isso a Comissão Nacional Justiça e Paz, juntamente com as Comissões Diocesanas de Justiça e Paz da maior parte das Dioceses de Portugal, apresentam um documento de reflexão para esta Quaresma, à volta do tema “Ética nas Finanças”.
Verificando o esforço que se vai pedindo às comunidades para não fecharem os olhos às necessidades mais urgentes, o documento realça a necessidade de ir às causas profundas dos problemas, não se ficando numa atitude “assistencialista”, mas caminhando numa linha de “assistência social”, expressão que tem subjacente a noção de dignidade humana do beneficiário, a quem estão associados “direitos indeclináveis”. Tal visão conduz-nos a ver e a agir para inverter a “espiral recessiva” através de políticas que garantam o progresso económico que seja criador de emprego, o qual vai restaurar a dignidade, a liberdade e a autonomia da pessoa, que promovam uma mais justa distribuição do rendimento e da riqueza. Perante o insucesso do modelo de política económica seguido no ano de 2012 e a vontade de continuar com ele em 2013, o documento afirma que “O povo, as pessoas e as famílias não podem servir de objeto de experiência de políticas de sucesso altamente duvidoso”. Ao afirmá-lo as comissões afastam-se da “cumplicidade do silêncio”.
Bento XVI, no momento histórico da sua resignação ao cargo de Papa, nos lembra na mensagem da Quaresma que “a fé precede a caridade, mas só se revela genuina se for coroada por ela” E onde não há justiça nem uma nem outra se encontram. Consequentemente não podemos deixar morrer o sonho da dignidade, rejeitando o todo-poderoso poder financeiro e impedindo-o de criar uma nova escravatura  que arrasta e submete a si as pessoas, até para o bocado de pão de que necessitam.

P. Valentim Gonçalves, CJP-CIRP
(publicado no VV  24.02.2013)