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Ele veio para o meio de nós Versão para impressão
Terça, 15 Dezembro 2009 22:49

Em tempo de Natal, ter presente que Ele veio para o meio de nós

Quando no passado mês de Maio se verificaram os distúrbios no Bairro da Belavista, em Setúbal, parecia óbvio o interesse por parte da comunicação em dar a conhecer algo que pudesse abanar um pouco a vida monótona do cidadão. As parabólicas e as câmaras estavam apontadas para aquela rua onde se encontrava a esquadra da Polícia. Pelos vistos só uma coisa interessava: o confronto.

É verdade que isso provocou o debate e a reflexão sobre a problemática envolvente; igualmente verdade aquilo que estava para lá da primeira linha, como é habitual, não sobressaiu.

Duas coisas, fundamentais, têm permanecido escondidas: a força interior por parte dos residentes e a interpelação (com poucas consequências) por parte de todos os que têm responsabilidade na caminhada desse povo.

A reflexão de um morador, que olha a realidade com um outro olhar, pode-nos ajudar a entender o que significa o Natal neste tempo que é o nosso. Trata-se do P. Constantino Alves, que foi o primeiro responsável pela Comissão Justiça e Paz dos Religiosos em Portugal e que enviou para a Agência Ecclesia a sua reflexão, a qual parcialmente aqui reproduzimos:

 

Ser sacerdote entre os pobres

Os bairros onde vivo a maior parte do meu tempo são na sua maioria habitados por gente pobre. São os chamados "bairros sociais" na área de Setúbal, entre eles a Bela Vista com os seus quase sete mil habitantes, feio e degradado, o 2 de Abril, a Terroa e o 25 de Abril. A paróquia de Nª Srª da Conceição situa-se neles.

Habitados por famílias trabalhadoras em que o índice de pobreza e exclusão social é muito elevado. Cerca de 50% são pobres. O desemprego, o trabalho precário, os baixos salários e as reformas pequenas são as causas directas da pobreza, A elas se associam o forte nível de quase analfabetismo ou a reduzida percentagem de jovens que acedem ao ensino superior, uns 5% apenas.

Também o tecido social é marcado por significativa interculturalidade, muitos emigrantes ou já seus descendentes da segunda e terceira geração e a existência de etnias, em especial a cigana, diminuem a qualidade de vida no bairro. Há dificuldades de convivência e entrelaçamento.

Há habitações sobrelotadas, por vezes coabitam duas e três famílias e os magros orçamentos não possibilitam o aluguer duma casa.

Os jovens são a face visível mais preocupante pela ausência de perspectivas de emprego garante dum futuro e duma inserção social. A vulnerabilidade atravessa este povo.

Dou comigo a pensar que sou rico entre os pobres. Mesmo privilegiado.

Vejo e sinto, então, este povo que carrega angústias, pesos e amarras que o impede de ser feliz e de viver em dignidade.

Uma parte do meu ministério sacerdotal é andar pelos bairros, contactar com as pessoas, escutá-las, anotar necessidades, entrar em casas para ver a sua degradação. Nesses momentos há uma indignação que sobe dentro de mim contra quem a nível do poder poderia fazer mais por este povo e um sentimento de que os lamentos se ouvirão por mais tempo. Por vezes, aí mesmo, me disponho a emprestar a minha voz, a minha inteligência, o meu "poder", a minha esperança e ousadia face às várias solicitações que me são feitas.

São casas com janelas podres, água a correr das canalizações, fios eléctricos pelao chão, ruas sem segurança, lixo e famílias a dormir nos carros por não terem casa.

São famílias que imploram apoio alimentar, pagamento de receitas médicas, gaz e rendas de casa ou um "pedido" para uma criança numa creche e, assim , poderem ir trabalhar.

Rostos degradados pelo vício da droga e do alcoolismo. Gente que precisa de desabafar seu sofrimento e receber uma palavra de esperança e conforto.

Lembro-me tantas vezes de Jesus a ir ao encontro da "ovelha perdida" e a sentir as entranhas a doer ao ver "estas multidões que são como ovelhas sem pastor."

Isto me impulsiona a participar ou dinamizar algumas acções colectivas de protesto ou reivindicação com as gentes do bairro.

Como é linda a nossa assembleia dominical. Várias centenas de pessoas, num entrelaçamento de idades, culturas e cores. Parece um jardim ! É gente que cresce na união entre si e na busca comum da Palavra de Deus e do alimento da Eucaristia.

Nela se toma consciência das pobrezas e do compromisso solidário. Cresce-se na descoberta da dimensão social do Evangelho e duma Igreja de pobres ao serviço dos pobres. O culto não é um fim em si mesmo. A igreja tem umas portas muito largas. São para acolher quem chega !

Mensalmente a comunidade cristã partilha alimentos para distribuir pelos mais pobres numa campanha denominada "Um quilo disto, um litro daquilo". Pobre ajuda pobre ! Em parceria com outra instituição civil e alguns restaurantes fazemos a entrega duma refeição, à noite, a famílias necessitadas. Desde Março já foram cerca de 20.000 ! É o milagre da multiplicação (ou distribuição ?) dos pães !

Várias famílias são apoiadas com roupas. Estes diversos serviços são dinamizados pelo grupo Caritas paroquial.

Temos um CLAII (Centro de Apoio à Integração de Imigrantes), um GIP (Gabinete de Inserção Profissional) e o Programa Escolhas 3ª Geração para crianças, adolescentes e jovens. São meios que disponibilizamos, lembrando-me que Jesus evangelizava por "gestos e palavras".

É como um vaso de barro que Deus escolheu e que leva dentro de si um tesouro que vivo como padre. Dou graças ao Pai porque me enriqueceu e me levou até junto dos pobres.

Constantino Alves