Inscreva-se na Newsletter

Inscreva-se na nossa Newsletter e receba actualizações e notícias da CJP-CIRP no seu e-mail.




Contador de visitas

mod_vvisit_counterHoje354
mod_vvisit_counterOntem532
mod_vvisit_counterEsta semana3198
mod_vvisit_counterÚltima semana2856
mod_vvisit_counterEste mês7808
mod_vvisit_counterÚltimo mês11967
mod_vvisit_counterTotal504076

Visitantes Online: 8

Login

Erradicar a pobreza Versão para impressão
Domingo, 28 Março 2010 20:14

Erradicar a pobreza... não só com palavras

"Querer o bem comum e trabalhar por ele é exigência de justiça e de caridade" (Enc. "Caridade na Verdade"). Erradicar a pobreza está na linha dessa exigência.

No Ano Europeu do Combate à Pobreza e à Exclusão muitas são as iniciativas à volta do tema. Perante a dureza da crise não faltam gestos de generosidade. Mas, se isso é importante, todavia não chega. Corremos o risco de fazer muitas coisas sem nada mudar. Aplicamos paliativos sem conseguir que a ferida vá curando. Falta, tanto a nível dos indivíduos como do Estado, uma reflexão mais crítica que conduza à mudança de atitudes.

A política insubstituivel

Seguindo B. Tardieu, do Movimento Quart Monde France, há que ter presente que "distribuir não é actuar contra a pobreza". As ajudas de emergência constituem uma manifestação de humanidade e de cidadania. Mas comportam dentro de si um grande perigo: podem substituir a política, isto é, podem desresponsabilizar os políticos por aquilo que têm de fazer. O fundador do movimento, Pe. Wresinski, fez com que a luta contra a pobreza saltasse de uma questão de curto prazo para uma questão política . É uma desgraça quando a preocupação pelo longo prazo, que é essencial, se torna acessória e habituais as medidas de urgência; é transformar a excepção em regra. Seria como que transformar o sistema de saúde num sistema de urgências que actuaria sobre os efeitos, mas deixando intocadas as causas. Por isso lutar contra a pobreza não é, em primeiro lugar, instituir distribuições. É escutar os que vivem mal e com eles encaminhá-los para a autonomia. É actuar com os outros para que toda a criança tenha acesso à escola, todo o jovem possa preparar-se para o futuro, toda a família possa habitar com dignidade, cada pessoa possa beneficiar dos mesmos direitos e assumir que tem as mesmas obrigações.29032010_bricol

Quando a excepção toma o lugar da regra, os políticos, se agarrados ao poder, ficarão contentes, pois que as suas obrigações estão a ser realizadas por outros, ainda que para isso lhes tenham de oferecer subsídios e criar uma série de dependências no meio de uma massa nebulosa que torna missão difícil discernir onde está a justiça ou a benesse. Isso é manter e perpetuar a pobreza.

Progresso não é igual a desenvolvimento

29032010_barraca.JPGÉ preocupante verificar que as últimas décadas ficaram entre nós assinaladas por um grande progresso, mas ao mesmo tempo por uma acentuada clivagem entre uma minoria muito rica e uma maioria mais empobrecida. Nisso conseguimos o triste troféu de ocupar um dos primeiros lugares no pódio da desigualdade. Preocupante ainda é a situação de que muitas das práticas que deveriam conduzir à superação da crise, não passam de uma maneira de justificar a distribuição de subsídios que normalmente não produzem, mas alimentam a falta de imaginação, de criatividade e na prática consubstanciam uma injustiça contra a sociedade que com os seus impostos financia o oportunismo e o egoísmo. Essa "mentira" rotulada de verdade interessa a muitos, porque não obriga a articular com outros, a avaliar, a corrigir, a apresentar resultados. Quando o Estado se transforma numa máquina pesada, ronceira, agarrada a um formalismo burocrático acrítico e proporcional à incompetência, então estamos mal.

Quantos projectos oficiais chegam ao fim sem atingirem os objectivos propostos ? Por que é que aos cidadãos que os financiaram não é dada uma palavra de explicação ? Quantos aqueles cujo orçamento não derrapou de uma forma escandalosa ? Qual é a razão para que o cidadão comum tenha de andar a pedir por favor o que por direito lhe é devido ?

Também depende de nós

É deprimente constatar que tantos continuam a acreditar que o bem-estar há-de chegar com um qualquer D. Sebastião aparecido por entre a névoa de um processo eleitoral. Preocupante é ver para onde se encaminham as opções dos governantes, que se descredibilizam impondo sacrifícios aos cidadãos continuando eles a ostentar riqueza e desperdício; ou quando tomam opções cujos objectivos não são claros, se para favorecer o desenvolvimento do país ou se, pelo contrário, promovendo interesses poderosos. É impressionante a insistência em diminuir o tempo de uma viagem de comboio em meia hora, quando permanecem tempos de espera que vão desde horas à porta de uma urgência até meses ou anos à espera de uma intervenção cirúrgica. Ou então investir em mega-estádios, não para desenvolver o desporto entre todos, mas sim o negócio dos novos potentados de uma indústria, onde a mercadoria humana atingiu valores de outra galáxia, enquanto muitas crianças não têm oportunidade de frequentar uma creche ou de prosseguir com sucesso os estudos. São apenas exemplos. Por isso há que estar atentos.

20100328_algarve

 

P. Valentim Gonçalves
(Publicado na Voz da Verdade 28.03)