Tendências europeias face à imigração africana Versão para impressão
Segunda, 22 Fevereiro 2010 13:23

Tendências xenófobas na Europa consideram os Africanos como se não tivessem direitos. Como é que depois nos vêm falar dos direitos humanos?

Um dos temas intensamente falado no Sínodo Africano foi o das migrações e de como são tratados os migrantes que vêm da África. Isto aconteceu, quando no Mediterrâneo (cemitério a céu aberto!) continuam a morrer africanos na tentativa de passar o Mare nostrum.

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Um dos primeiros a falar sobre o tema foi o bispo Giovanni Martinelli de Trípolis (Líbia): «Sabemos que no continente africano há mais de dez mil deslocados, de emigrantes que procuram uma pátria, uma terra de paz. O fenómeno deste êxodo revela um rosto de injustiça e de crise sociopolítica em África.» E o prelado acrescentou: «Na Líbia vivemos toda a tragédia deste fenómeno. Vir para a Líbia por se ser rejeitado pela Europa... Há milhares de emigrantes que entram na Líbia anualmente provenientes dos países da África subsariana. A maior parte deles fogem da guerra e da pobreza dos seus países e chega à Líbia onde procuram um trabalho para ajudar a família ou um modo de avançar para a Europa na esperança de encontrar aí uma vida melhor e mais segura. Peço aos seus pastores para não os esquecerem deles neste êxodo forçado», concluiu o bispo de Trípolis. E os seus bispos não os estão a esquecer no Sínodo Africano.

Pelos emigrantes provenientes do Corno de África (Etiópia, Eritreia e Somália) levantou a voz o arcebispo metropolita de Adis-Abeba e presidente da Conferência Episcopal da Etiópia. B. D. Souraphiel: «Espero que este Sínodo para a África», disse o bispo, «procure conhecer as causas que estão na origem do tráfico de seres humanos, das pessoas deslocadas, dos trabalhadores domésticos explorados (especialmente as mulheres no Médio Oriente), dos refugiados e dos emigrantes, especialmente dos africanos que chegam em lanchas, e dos que pedem asilo, e que isso resulte em posições e propostas concretas para mostrar ao mundo que a vida dos Africanos é sagrada e não destituída de valor, como pelo contrário parece ser apresentada e vista por muitos meios de comunicação.»

É indescritível o sofrimento dos etíopes, somalis, eritreus para chegar via Cartum (Sudão) à Líbia. É a viagem da morte por deserto ou por mar! É um êxodo que atinge milhões de pessoas em fuga também da África Central e que chegam à Líbia via Agadez (Nigéria). Os emigrantes da África Ocidental tomam a via do mar (a sul de Marrocos) para chegar às Canárias, e depois Portugal ou Espanha (desses morrem anualmente cerca de cinco mil no mar!).

20100222_mortospraiaNo Mediterrâneo, entre 2002 e 2008, segundo estimativas recentes, perderam a vida cerca de 42 000 pessoas, uma média de 30 por dia!

O bispo de Makurdi (Nigéria), W. Avenya, disse na aula do sínodo: «Os africanos continuam a vir para a Europa. Fá-lo-ão por todos os meios, mesmo a custo da própria morte no deserto ou no mar, enquanto o equilíbrio económico e ambiental entre a África e o resto do mundo não for restabelecido por quem é responsável, isto é, o Ocidente.»

Coube depois ao arcebispo de Acra (Gana), G. Charles Palmer-Buckle, falar das condições deploráveis dos emigrantes na Europa. Muitos bispos africanos estão preocupados com as leis anti-imigração aprovadas em muitos países europeus, para impedir os fluxos migratórios «a ponto de», disse o arcebispo de Acra, «renegar os seus direitos e deixá-los morrer no mar». O arcebispo denunciou as tendências xenófobas presentes na Europa que «consideram os Africanos como se não tivessem direitos». E sarcasticamente lançou a pergunta: «Como é que depois nos vêm falar dos direitos humanos universais?» Palavras claras e duras por parte dos bispos de África sobre um dos problemas mais graves que afligem o continente africano.


ALEX ZANOTELLI ( Alem Mar, Janeiro, 2010)