Um grito que é urgente Escutar Versão para impressão
Terça, 23 Junho 2009 09:59

O tráfico de pessoas é uma realidade há muito presente, mas da qual só ultimamente temos vindo a escutar na comunicação social. Os números são alarmantes; a confirmá-lo está o resultado económico procedente desta actividade criminosa, já equiparada ao negócio da droga e das armas.

O nosso país, depois de assinada a Convenção, elaborou o "Plano Nacional de Luta Contra o Tráfico de Pessoas" que está em vigor e são muitos os esforços que estão a ser feitos pelos organismos competentes.

Devido à complexidade do problema, não podemos deixar este tema apenas com as forças policiais que actuam no terreno. São sobretudo mulheres que, na busca de um emprego que as faça sair da extrema pobreza, se encontram prisioneiras de redes que não olham a meios para atingir altos lucros a nível económico.

Como acontece o Tráfico de Pessoas para fins de exploração sexual?

Leia a história desta jovem, igual ou parecida a tantas outras, que passam pelo nosso país:

"Lina tem que conseguir o emprego; é a nona da fila - mas só há duas vagas.

As vagas estão preenchidas. Lina regressa a casa, onde os armários estão vazios, o apartamento despido...

Um dia Lina é abordada por Victor. É muito simpático. Está só, ela também. Uma vida nova com Victor poderia significar que podia enviar dinheiro para casa. Ela e Victor vão voar para novas vidas. Lina despede-se da família. Enviará notícias. Quando o avião aterra, Victor comunica que o seu irmão virá ter com eles. Ele tem assuntos a tratar. O seu irmão irá levá-la ao seu alojamento. Victor virá juntar-se a ela mais tarde. Lina não gosta do irmão de Victor. Ele tem olhos frios. Ele pega na sua carteira, tira o passaporte e as fotografias dos seus irmãos. Há agora uma mulher junto à porta. Leva-a para o pequeno apartamento e manda-a sentar-se. Victor é um homem de negócios. Ele pagou o bilhete de Lina para a sua nova vida. Agora ela tem que pagar o favor. Eles têm as fotos da sua família, e ela não vai querer que algo de mal lhes aconteça. Ela tem que pagar. Victor irá providenciar os "clientes", alimentação e habitação até que a dívida esteja saldada. Lina entra aos tropeções no quarto que partilha com outra rapariga. A brutalidade da primeira semana torna-se a mundana monotonia dos meses. Lina já não se olha ao espelho. Os seus olhos estão mortos e ela está a morrer por dentro. O último "cliente" foi-se embora mas a dor dos seus murros não. Ele já a tinha visitado antes, já tinha sido agressivo, não gosta dos seus protestos, paga muito dinheiro, não suporta mais. O corpo quebrado de Lina é levado do apartamento vazio. Os vizinhos não sabiam o que se passava na porta ao lado. A polícia não encontra qualquer identificação. Um homem ainda novo tinha suspeitas, vive por cima. A sua mulher trabalha com o médico local e ela suspeitava. Não sabiam a quem deviam dizer, não sabiam o que fazer, não sabiam que isto ia terminar assim.

Muitas outras mulheres, em sua própria defesa , não oferecem resistência, aceitam a situação e passam anos para pagar a dívida, outras até se tornam elas mesmas traficantes. Opções de sobrevivência para evitar o pior.

Também é connosco

No drama do tráfico humano há um sentimento comum àquelas pessoas que conhecem e apoiam as vítimas: o sentimento de quem está como David perante Golias. Porém, David, incomparavelmente mais indefeso, conseguiu atingir o ponto vital do inimigo. Em vez de se deixar abater pela impotência, teve a inteligência e a perspicácia para acertar no alvo.

Colocadas as antenas, importa sinalizar junto de Instituições que acolhem as vítimas. No âmbito da Igreja Católica temos as Irmãs Adoradoras que fizeram a opção de acolher e cuidar destas mulheres vítimas do tráfico para exploração sexual. Precisamos de pedir perdão a Deus, às mulheres e às crianças vítimas de tráfico pela nossa indiferença, cumplicidade, distracção e falta de compromisso. De igual modo temos de criar Redes que nos envolvam, como comunidade humana, nesta luta não só da Prevenção, Denúncia e Protecção, mas principalmente de Partilha da dor e das esperanças de quem é vítima do engano e da exploração, tanto sexual como laboral.

Ir. Júlia Barroso, CAVITP (Comissão de Apoio à Vítima do Tráfico de Pessoas)