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As fronteiras perigosas da cultura e da religião Versão para impressão
Quarta, 11 Novembro 2009 00:09

Na Encíclica "Caridade na Verdade", o Papa Bento XVI aborda a ideia de "uma originária e trágica reclusão do ser humano em si próprio", explicando que ele "aliena-se quando fica sozinho ou se afasta da realidade" (CV 53); continua dizendo que "a Humanidade inteira aliena-se quando se entrega a projectos unicamente humanos, a ideologias e a falsas utopias", concluindo que "o desenvolvimento dos povos depende sobretudo do reconhecimento que são uma só família" e que "na interpretação metafísica do humanum a relação é elemento essencial" e que isto é património das diversas religiões "que ensinam a fraternidade e a paz, revestindo-se por isso de grande importância para o desenvolvimento integral" (CV 55).

Quando a alienação chega...

Mas chama a atenção para um perigo grave que paira sobre as culturas e as religiões, referindo que "não faltam comportamentos religiosos e culturais que acabam por refrear o verdadeiro desenvolvimento humano ou mesmo por impedi-lo" e isto acontece "quando não empenham o ser humano na comunhão, mas o isolam na busca do bem-estar individual, limitando-se a satisfazer os seus anseios psicológicos (CV 55).

Se o autor tivesse manifestado tais ideias há duas décadas atrás seguramente teria sido apelidado de filomarxista. Em matérias de certa transcendência as fronteiras incluem a "terra de ninguém" entre uma banda e outra, onde certos temas se transformam em tabu e cuja abordagem é facilmente interpretada como um ataque. É por isso que a forma serena e pouco palavrosa do Papa vai, com uma perícia cirúrgica, tocar em algo que é fundamental para quem não quiser assobiar para o lado fazendo de conta que não vê o que está a ver: "o desenvolvimento tem necessidade das religiões e das culturas dos diversos povos, mas não o é menos necessário um adequado discernimento" (CV 55).

As feridas aparecem...

Como isto é pertinente nos nossos dias. Na revista Além Mar de Outubro encontra-se um artigo do jornalista Carlos Reis que aborda o fenómeno de milhares de crianças que, no Congo e em Angola, engordam o número das "crianças de rua" pelo facto de terem sido acusadas de feitiçaria e por isso expulsas das famílias e excluídas da sociedade; e tais acusações são dirigidas a crianças de 8 a 13 anos e até a crianças mais novas, incluindo a bebés.

Também no campo da religião podemos assistir todos os dias a manifestações de propostas de libertação para todas as dificuldades, com a oferta de milagres como um poder adquirido e do qual alguns são despenseiros, programando a sua entrega; ou transformando o simbolismo de coisas sensíveis em poções mágicas de efeito garantido; ou ainda invocando o santo nome de Deus em vão pagando nos jornais a inserção de orações que sugerem a sua força mágica pela repetição, como que se Deus e a liberdade que quer para os seus filhos e filhas estivesse condicionada por qualquer tipo de hábil malabarismo.

Obviamente que esta mentalidade se insere num contexto cultural muito mais amplo, também ele feito de vazios, superficialidades, horizontes limitados ao presente e ao imediato. Consultando um jornal diário no dia de hoje podemos encontrar uma página inteira com anúncios de soluções para todos os males: há uma a proliferação de mestres, professores, astrólogos, adivinhos, médiuns, especialistas em trabalhos ocultos, com receitas garantidas para todos os males, como invejas, males de amor, negócios, impotência, amarrações, droga, etc. E tudo com resultados garantidos de tal forma que o pagamento só é exigível após a sua verificação. Curiosamente esses vêm ao lado de outros infindáveis anúncios de cariz erótico, uns mais outros menos explícitos, mas todos eles expressão da lei da oferta e da procura em que a pessoa humana facilmente se deixa envolver.

Neste contexto são oportunas as afirmações do Papa na sua clareza e na sua incidência cirúrgica sobre aquilo que parece tabu: as culturas e as religiões não estão de modo algum imunes ao desvio, à alienação e, portanto, à condição de serem objecto de discernimento crítico, que tem como critério "o homem todo e todos os homens".

"A caridade na verdade, que Jesus Cristo testemunhou, é a força propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira", assim começa a Encíclica; e nisso se encerra a sua mensagem.

Pe. Valentim Gonçalves - Comissão Justiça e Paz CIRP
Publicado no Jornal Voz da Verdade, 24 de Outubro de 2009