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Perfil: Cardeal Nguyen Van Thuan Versão para impressão
Quarta, 08 Julho 2009 12:23

Bispo Van ThuanHOMEM DE ESPERANÇA

Detido e encarcerado logo após a ascensão do regime comunista ao poder no Vietname do Sul, o bispo Van Thuan viveu os seus 13 anos de cativeiro sob o signo da esperança.

Estamos em 1975, a Guerra do Vietname está a chegar ao fim. O bispo Francisco Nguyen Van Thuan é nomeado bispo coadjutor de Saigão, capital do Vietname do Sul, pouco antes de aquela cidade ficar sob controlo dos guerrilheiros comunistas do Norte. As novas autoridades proíbem-no de tomar posse, sob pretexto de que a sua nomeação era uma conspiração entre o Vaticano e os países ocidentais para derrubar o regime comunista. Passado pouco tempo, é detido e preso. Contudo, as razões verdadeiras da sua detenção prendem-se com o facto de ele ser uma pessoa de fé e de entre os seus antepassados contar um tio que havia sido presidente e assassinado em 1963.

Enquanto o levavam para a prisão, tomou a decisão de não cruzar os braços, de não se resignar, mas de viver cada momento enchendo-o de amor. E foi exactamente isso que fez nos 13 anos que passou nas prisões do Vietname, 9 dos quais em total isolamento. Descreveu este período como «uma tortura mental, no limite da loucura», em que tinha que caminhar de manhã à noite para aguentar as dores da artrose.

Da prisão escreveu uma carta aos seus amigos pedindo-lhes um pouco de vinho para os seus males de estômago. Eles entenderam tratar-se de um código para vinho da missa, e logo lhe enviaram uma pequena garrafa com o rótulo: “Vinho para curar as dores de estômago”. Com três gotas desse vinho, uma gota de água, pequeninas hóstias e a palma da sua mão a servir de cálice, celebrava a eucaristia todos os dias, juntamente com alguns católicos, às escondidas. Guardava o que sobrava das hóstias consagradas, embrulhadas em papel de cigarro dentro do bolso, e todos os dias de madrugada fazia adoração. A eucaristia foi para ele e outros presos a «única força, a única esperança... Na tua cela nunca estás só. O Senhor ajuda a transformar a dor em amor», escreveu ele.

Amigo dos guardas

Para sobreviver à solidão, conversava com os guardas da prisão que, no início, se mostravam desconfiados. Com o seu carácter afável e amistoso, conseguiu gradualmente despertar o seu interesse, falando com eles sobre vários temas e ensinando-lhes inglês e francês. Tornou-se seu amigo. Admiravam-se porque os chamava de amigos, eles que eram os seus algozes, mas ele respondia que os amava porque Jesus ensinou que amássemos os inimigos.

Um dia, enquanto partia lenha, pediu licença a um dos guardas para fazer um crucifixo de madeira, o que o guarda aceitou. Mais tarde, noutra prisão, pediu a um guarda prisional um arame para fazer uma corrente para pendurar o crucifixo ao pescoço. Guardaria o crucifixo num pedaço de sabão durante anos e, já em liberdade, usaria este crucifixo como a sua cruz de bispo e cardeal.

Como não podia ter a Bíblia na prisão, escreveu mais de 300 citações do Evangelho que sabia de cor, em pedaços de papel. Escreveu ainda mais de 1000 exortações ao seu povo, que fugia do país em barcos, incutindo-lhes coragem e força para os momentos dramáticos da fuga. Conseguiu passar essas exortações para fora da prisão, clandestinamente, através de uma criança que depois as copiava no seu caderno escolar. O caderno foi levado para fora do país pelos refugiados e viria a ser publicado em livro com o título «A estrada da esperança» em oito línguas.

Em 1980, já em prisão domiciliária e na calada da noite, em segredo, consegue escrever o seu segundo livro: «O caminho da esperança à luz da Palavra de Deus e do Concilio Vaticano II». Durante esse tempo, escreveu ainda um terceiro livro, intitulado «Os peregrinos do caminho da esperança».

Nascido a 7 de Abril de 1928, Van Thuan descendia de uma família profundamente cristã. Entre os seus antepassados contam-se alguns mártires, muitos deles perseguidos nos anos de 1698 e 1885. A sua mãe, que morreu com 100 anos na Austrália, costumava ler-lhe histórias da Bíblia e contar-lhe testemunhos dos seus familiares mártires.

Prega retiro ao papa

É ordenado sacerdote em 1953 e logo depois vai para Roma, onde se forma em Direito Canónico. Regressado de Roma, dedica-se à formação de futuros sacerdotes como reitor e professor do seminário. Em 1967, é nomeado bispo de Nhatrang, no Centro do Vietname, exercendo uma intensa actividade pastoral, com os leigos e os jovens, os quais incentiva a ter um papel activo nos conselhos pastorais paroquiais. Além disso, construiu escolas e fez aumentar o número de seminaristas.

Posto em liberdade em 1988, no entanto, as autoridades proíbem-no de assumir funções como bispo auxiliar de Hanói, permanecendo em prisão domiciliária na residência episcopal de Hanói. Em 1991, tem de abandonar o seu país após ter recebido ameaças de morte de um membro do Governo.

Em Roma é recebido pelo Papa João Paulo II, que o nomeia vice-presidente e depois presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz em 1998. Em 2000, prega o retiro quaresmal ao papa e seus colaboradores da Cúria romana. As meditações foram reunidas em livro, «Testemunhas da esperança», onde partilha a sua experiência de prisão, sem acusações e rancor, testemunhando apenas a esperança que o animou ao longo do seu cativeiro. Durante o retiro, o cardeal sublinhou a necessidade do amor ao próximo com a seguinte história: «Um dia, na prisão, o guarda perguntou-me: “Tu amas-nos?”, ao que eu respondi: “Sim, eu amo-vos”. “Mas isso é impossível, nós temos-te aqui na prisão, sem julgamento, e tu amas-nos? Não é verdade”. “Mesmo que vocês me quisessem matar, eu amar-vos-ia na mesma”. “Mas porquê?” “Porque Jesus ensinou-me a amar a todos, mesmo os meus inimigos. Se eu não amo, não mereço mais chamar-me cristão”, explicou. O guarda respondeu: “Isso é muito belo, mas difícil de compreender”.»

Segredo do cardeal

Morre em 2002, aos 74 anos, vítima de cancro. Durante a sua longa doença manteve a serenidade e alegria. Nos últimos dias, quando já não podia falar, olhava para o crucifixo à sua frente, rezando sozinho.

O segredo do cardeal Van Thuan foi a sua confiança em Deus, alimentada pela oração e sofrimento, que aceitava com amor. A eucaristia transformou a prisão numa igreja. O corpo de Cristo era o seu «medicamento». Costumava contar emocionado: «Cada vez que celebrava a eucaristia, estendia os braços e pregava-me na cruz com Jesus, para beber com Ele o cálice amargo. Todos os dias, ao recitar as palavras da consagração, confirmava com todo o meu coração e alma um novo pacto, um pacto eterno entre Jesus e eu, através do seu sangue misturado com o meu.»

Pe. António Carlos Simões