Inscreva-se na Newsletter

Inscreva-se na nossa Newsletter e receba actualizações e notícias da CJP-CIRP no seu e-mail.




Contador de visitas

mod_vvisit_counterHoje270
mod_vvisit_counterOntem554
mod_vvisit_counterEsta semana2589
mod_vvisit_counterÚltima semana2631
mod_vvisit_counterEste mês6457
mod_vvisit_counterÚltimo mês9532
mod_vvisit_counterTotal601485

Visitantes Online: 5

Login

Perfil: D. Hélder Câmara Versão para impressão
Quinta, 09 Julho 2009 00:00

D. Hélder CâmaraPROFETA DO NOSSO TEMPO

Assinala-se este ano o centenário do nascimento de D. Hélder Câmara, bispo brasileiro conhecido pelo seu compromisso para com os mais pobres e defesa dos direitos humanos. Foi uma voz incómoda para os poderosos, que o apelidaram de «arcebispo vermelho».

Na homilia da missa de 7 de Fevereiro passado, que marcou a abertura das comemorações do centenário do nascimento de D. Hélder Câmara, o presidente dos bispos brasileiros, D. Geraldo Lyrio Rocha, definiu D. Hélder como um «profeta» e «dom» para a Igreja e os pobres. Recordou o episódio de quando o jovem Hélder informou a família da sua intenção de ser padre, ao que o pai respondeu: «Meu filho, ser sacerdote é muito difícil, o sacerdote e o egoísmo não podem viver juntos». O aviso não o intimidou, uma vez que daí a pouco tempo ingressaria no seminário, para iniciar a sua preparação rumo ao sacerdócio.

Sacerdote e bispo

Nascido a 7 de Fevereiro de 1909 em Fortaleza, capital do estado do Ceará, no Nordeste do Brasil, D. Hélder foi ordenado padre aos 22 anos de idade, com especial autorização do Vaticano, por não ter a idade mínima requerida. Como jovem sacerdote dedica-se à área da educação, aceitando, a pedido do seu bispo, o cargo de director do Departamento de Educação do Ceará. Foi também assistente nacional da Acção Católica, onde trabalhou na formação e acompanhamento dos leigos.

Foi ordenado bispo auxiliar do Rio de Janeiro em 1952, tendo fundado nesse ano a Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros (CNBB), da qual foi secretário durante 12 anos. Participou activamente na criação do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), que surgiu em 1955. Tomou parte nas reuniões desse organismo episcopal como delegado do episcopado brasileiro.

Com os pobres

No Rio de Janeiro, manteve sempre o contacto com a imensa massa de pobres que vivem nas favelas. Sonhando com a erradicação desses bairros miseráveis, constituiu a «Cruzada de S. Sebastião», um complexo de habitações para albergar os favelados, pessoas que viviam em condições sub-humanas nas periferias do Rio de Janeiro. Fundou ainda o «Banco da Providência», instituição destinada a ajudar as famílias mais pobres, e lançou a «Operação Esperança» para auxiliar as vítimas das inundações do Recife, em 1975.

Em 1964, é nomeado arcebispo de Olinda e Recife, umas das regiões mais pobres do Brasil. A sua actividade nesta diocese coincidiu com o regime ditatorial que se instalou no país em 1964 e duraria até 1989. Conhecido como crítico do regime, as autoridades negam-lhe o acesso aos média. Chamado o «arcebispo vermelho», foi perseguido, ameaçado e difamado. Costumava dizer: «Se dou comida a um pobre, chamam-me santo, mas se pergunto por que é pobre, chamam-me comunista». Os seus colaboradores mais próximos foram torturados, presos e até mortos.

O isolamento a que foi votado no seu próprio país, porém, não o deteve na sua actividade de denúncia das injustiças, pobreza e defesa da democracia. Antes pelo contrário, este facto granjeou-lhe fama internacional, sendo convidado para conferências em várias partes do mundo. Com o seu estilo gestual e afirmativo de comunicação, contagiava multidões. Dava a conhecer o abuso dos direitos humanos no Brasil e defendia o uso da não-violência como meio de protesto e superação das injustiças.

Igreja pobre

No Concílio Vaticano II (1962-1965), propôs uma Igreja pobre ao serviço dos pobres e despojada de poder e títulos. Defendeu uma Igreja entendida como Povo de Deus, com um governo baseado na cooperação entre os bispos e com o papa e co-responsabilidade, aberta ao mundo e empenhada na transformação social. Juntamente com mais 40 bispos, reuniu-se nas catacumbas de Roma nos últimos dias do Concílio, tendo assinado o «Pacto das Catacumbas», pelo qual se comprometeram a viver uma vida simples, dedicada aos pobres e sem títulos honoríficos, riqueza e poder.

Querendo ser coerente com a sua defesa duma Igreja pobre e evangélica, renuncia ao palácio episcopal e vai viver para uma pequena habitação anexa à sacristia da Igreja das Fronteiras, em Recife, onde vive 21 anos. Aí recebe pessoalmente todos aqueles que o procuravam. No contacto com o povo dava a impressão de não ter agenda, de ter todo o tempo para os outros. Nunca teve carro ou motorista.

Força espiritual

Pode-se perguntar de onde tirava D. Hélder Câmara tanta força e dedicação no seu dia a dia. A resposta está na noite e na missa. Sobre a noite, ele próprio conta: «Desde o seminário, eu adquiri o hábito de me levantar às duas horas da manhã… é neste exacto momento que eu refaço a unidade, a unidade em Cristo, sobretudo.» É nessas horas silenciosas da noite que ele «mergulha em Deus», revê o seu dia anterior e planeia o dia seguinte. D. Hélder rezava a missa lentamente e com muita simplicidade, como se estivesse a conversar com a Virgem Maria e os santos.

D Hélder Câmara faleceu a 27 de Agosto de 1999. A sua memória ficou gravada no coração do povo simples a quem serviu toda a sua vida. Defensor dos direitos humanos e pioneiro do movimento de «opção pelos pobres», a sua figura permanece como testemunha de uma Igreja pobre e servidora. E uma voz incómoda para os conformistas.
Pe. António Carlos Simões