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“A mulher continua ali no meio, sozinha…” (Jo 8) Versão para impressão
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Domingo, 27 Setembro 2009 00:00

A minha experiência de contacto directo e continuado com muitas mulheres que lutam pela sobrevivência e se atiram para as ruas da nossa capital correndo tantos riscos, tem sido para mim uma lição de vida.

Escutar as suas histórias, observar um e outro dia os seus gestos de solidariedade para com as suas companheiras, ler no seus rostos e para além das suas palavras, tem sido motivo de reflexão e de questionamento.

 

Ali permanecem uma e outra noite, dias a fio, quer faça frio ou esteja calor, quer chova ou se mantenha uma noite estrelada... Ali, de pé, sempre de olhar atento para captar mais clientes. Ali, no meio das ruas ou nas esquinas, desde as mais jovens às veteranas de mais de 70 anos, desde as mulheres solteiras àquelas que são casadas ou divorciadas, mães de filhos e avós; muitas portuguesas e tantas estrangeiras oriundas sobretudo da Europa de Leste, das Américas e da África... tantas vezes sujeitas a agressões verbais e físicas, ainda humilhadas e marginalizadas pela sociedade... elas buscam alternativas de sobrevivência numa dita "profissão" que é de alto risco.

Tem sido para mim impressionante o rodopio de carros, de homens sedentos de sexo, que buscam o prazer momentâneo, que pagam barato - já que é muita a oferta -, o prazer duma relação sexual momentânea, sem afecto, aquele afecto que só pode acontecer numa relação séria e madura.

E, porquê continua a ser assim? Porquê dias e anos a fio? Porquê não se verifica o progresso económico destas mulheres? Estarão condenadas a "trabalhar" deste jeito anos a fio, para a sua sobrevivência? para poderem juntar algum dinheiro e enviar para a família no estrangeiro? ou para poderem pagar as dívidas? Um dia e outro dia, com clientes a pagarem bem, tudo somado não equivaleria a um grande ordenado? Não daria para uma vida folgada? Sim, poderia isso acontecer... mas, o mais indignante, é a existência dos chulos, esses homens, que também lutando pela sua sobrevivência, entram no submundo do ilícito. Homens sem princípios de humanidade que sob a capa de amigos que vigiam e guardam, exturquem grande parte deste dinheiro. E como a agressão, a ameaça e a violência estão aí tão presentes, estas mulheres em situação de tanta fragilidade submetem-se, tornam-se presa fácil quer do cliente, quer do chulo/amigo, companheiro, marido...

E de entre estas centenas de mulheres, quantas entrarão no quadro das "Mulheres Traficadas"?

  • Estarão ali forçadas e terão o compromisso de saldar uma dívida?
  • Estarão proibidas do contacto com terceiras pessoas e vivendo sob grande controlo?
  • Estarão proibidas de contactar com a família? Sem a posse dos documentos?
  • Sofrerão violência física, psicológica, sexual ou qualquer outro tipo de ameaças?
  • Estarão atemorizadas e manipuladas para não recorrerem às autoridades?
  • O seu dinheiro estará a ser controlado sob pretexto de "ficar seguro"?

A quem poderemos atribuir a responsabilidade destas injustiças? Quando acontecerá um verdadeiro debate ao nível da política, das Igrejas, das Instituições, um debate livre de preconceitos nem moralismos? Quem se atreverá a apontar o dedo a estas mulheres, que ali permanecem de pé, sozinhas? Tal como outrora, também hoje Jesus se levantará, fixará os seus olhos nos olhos destas mulheres e lhes dirá, Eu não vos condeno, ireis sair deste flagelo. Porque os governos, os políticos, os chefes das Igrejas, as Instituições e todos os cidadãos vão reparar nas causas da prostituição, vão dialogar, discutir e tomar decisões que tenham a ver com a justa distribuição dos bens, com a igualdade de género e com a fraternidade universal criando um mundo sem fronteiras, uma cidade sem violência. Desde os Jardins de Infância, as crianças começarão a praticar o diálogo, a gerir bem as suas emoções, a interiorizarem a igualdade de género, a amarem e a serem amadas com imensa ternura. Os homens deixarão de buscar fora dos seus lares ou do seu círculo de amigos, o afecto, a ternura e o prazer de uma relação sexual livre e responsável.

Júlia Barroso, stj - CAVITP
Publicado na VV de 27/09/2009