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Pe. Alberto Neto Versão para impressão
Terça, 03 Julho 2012 23:00

Pe._Alberto_Neto

Completam-se neste dia 25 anos da morte do Pe. Alberto Neto, figura marcante na oposição à ditadura em Portugal a partir da sua fé e da doutrina da Igreja. Para assinalar a data e sobretudo a sua figura de padre foi celebrada a Eucaristia na Capela do Rato.
O seu colega e amigo Cónego Janela referiu que ele "viveu e morreu como um profeta", era humilde e para quem a "opção preferencial pelos pobres não era um travão, mas uma realidade concreta".

O seu testemunho foi marcante para a sua época, mas permanece para além do tempo. Em homenagem a tal testemunho, tão significativo para a espiritualidade da Justiça e da Paz, transcrevemos a homilia que fez na Capela do Rato, no dia 11 de Maio de 1960

Da missa para o mundo, do mundo para a missa

Nós podemos, meus irmãos, tentar julgar que a prática da vida religiosa, que o cumprimento dos Sacramentos, que a vivência das festas litúrgicas serão o penhor da nossa vida eterna. Mas, por mais que nós esquadrinhemos a verdade dos Evangelhos, nós não encontramos ninguém à direita do Pai pelo número de missas que ouviu, pela série de comunhões que fez, pelo grupo de novenas que realizou, pelas peregrinações a Fátima que conseguiu fazer. Nem tão-pouco há no Evangelho a mais pequena referência a que iremos para a eternidade no fim de fazer nove primeiras sextas-feiras ou cinco primeiros sábados do mês. A única coisa que o Evangelho nos revela como partilha da eternidade de Deus é muito mais simples mas muito mais difícil, que o Apóstolo nos prevenia com muita verdade, aqui nesta Epístola: «A religião pura e perfeita, aos olhos de Deus, nosso Pai, consiste em socorrer os órfãos e as viúvas, em estar atento aos necessitados, em conservar-se reto no meio das seduções do mundo».

Aquilo que fará a eternidade dos homens é só e apenas a capacidade de eles conseguirem encontrar Deus em todos os homens, Deus no próximo, e Deus, de entre os próximos, no mais próximo e no mais pequeno. A entrada para a direita do Pai está no Evangelho de S. Mateus, da maneira mais clara e mais iniludível: «Anda, bendito de meu Pai: porque tive fome, deste-me de comer; tive sede, deste-me de beber; estava preso, visitaste-me; estava sozinho, sorriste-me; estava doente, foste a minha casa». E a resposta, naturalmente impetuosa, é esta: «Mas onde Te vi eu, Senhor, doente, preso, com fome e com sede?» - «O que fizeste ao mais pequeno, foi a mim que o fizeste».

A religião ainda não ganhou a dimensão social (...); ainda não entendeu que a direita do Pai é a construção do mundo na justiça, é a construção duma comunidade onde os homens partilhem mais, sejam mais fraternos, tenham mais direito à cultura, tenham mais direito à verdade, tenham mais direito à informação, tenham mais direito a uma capacidade de serem livres até à medida da liberdade dos filhos da terra e dos filhos de Deus.

Se eu fizer muitas comunhões, se eu vier à missa de domingo, se eu tentar batizar todos os filhos de amigos que não são batizados - o que será para interrogarmos no fim se será de se fazer... - mas se eu não tiver caridade, desta caridade que não seja vã nem mentirosa, se eu não trabalhar para rebentar com as estruturas de injustiça onde o homem não vive mas apenas vegeta, se eu não tentar acabar com todos os círculos de ferro à minha volta que não deixam respirar a caridade, a justiça, a liberdade e o amor, eu posso fazer todas as comunhões, todos os sábados do mês, todas as sextas-feiras, todos os dias 13 em Fátima, que não consigo dar nem realizar nem a minha nem a salvação do mundo. Nós podemos reunir no Terreiro do Paço uma multidão extraordinariamente ardorosa que grita glórias a Deus e à Sua existência, ou, naquele grande terreiro de Fátima, à Virgem Maria, como Mãe de Deus. Deixará, talvez, algum «Ah!» de admiração nalguns espíritos. Deixará como que um respeito muito grande por uma multidão que acredita em alguma coisa. Mas podeis ter a certeza: não há uma conversão profunda e duradoira, como regra, através desses sinais. Outrora, como hoje, a única coisa que constrói cristãos é uma verdade muito simples: «Vede como eles se amam». Foi assim, segundo o relato dos Atos dos Apóstolos, e terá que ser assim.

E sempre que a Igreja se reduz ao culto, ao ritualismo, para fugir da caridade impressa nas estruturas da vida, nas relações pessoais e humanas, a Igreja refugia-se em xaropes para tirar a tosse mas continua com uma profunda septicemia da qual não conhece a origem do gérmen. Ou nós conseguimos acreditar que o culto que vimos aqui realizar, ou que vamos realizar em cada lugar de culto, é a expressão de uma partilha já realizada anteriormente na vida, ou então a nossa missa, a nossa comunhão são uma mentira.

Eu tenho que ser sincero. Demorei muito tempo a compreender por que foi que Cristo, que podia celebrar a Eucaristia porque era o Sacerdote do Pai, apenas celebrou a Quinta-Feira Santa, depois de três anos intensos de trabalho, de oração, de exemplo, de fadiga, de dor, junto dos seus amigos. E, no entanto, só o descobri há pouco tempo porque fez-me impressão aquela palavra: «Eu desejava ardentemente comer esta Páscoa convosco». Então, porque não a realizou antes? Porque teve de repartir primeiro, com eles, a fraternidade, a palavra, o pão, o ensino, a misericórdia, a sinceridade. Teve que rebentar com toda aquela estrutura brutal de fariseus e saduceus; teve que denunciar todo o mal que não deixava o culto de Deus e o zelo de Deus virem ao de cima; teve que destrinçar toda aquela mistura brutal entre a política e a religião, em que os fortes dominavam os mais fracos e, à base da Lei, acabavam por destituir todos os puros de espírito. E então, quando o Senhor ainda não tinha completado a obra, nem tinha, digamos, a utopia - no mau sentido da palavra - de a querer realizar, mas a quis entregar a nós para que nós realizássemos o que falta à Sua Paixão; nesse momento Ele, então, com verdade e sem mentira pôde pegar no pão, pôde pegar no vinho e pôde olhar-nos olhos no olhos, mesmo àquele que O ia trair, e dizer: «Isto é o meu corpo. Isto é o meu sangue».

A missa, meus irmãos, é a profunda responsabilidade, é a profundíssima responsabilidade dos que só podem partilhar o Pão de Deus se tentam - não quer dizer que consigam - mas se tentam diariamente partilhar o pão da compreensão, do perdão, do amor, da fraternidade, da ajuda, da construção e da denúncia do mal junto das estruturas onde está implicada a sua vida social, política, económica ou cultural. (...)

P. Alberto Neto Capela do Rato, Lisboa, 11 de Maio de 1969